sábado, 17 de janeiro de 2009

Gosto de ver você dormir que nem criança com a boca aberta...


Trecho da música O mundo anda tão complicado, de Renato Russo.

Há algum tempo, durante uma reunião familiar, em meio àquelas reuniões em que muita conversa é jogada fora, muitos assuntos “pueris” são dialogados, surgiu um assunto, na verdade um embate: Qual a diferença entre os compositores Cazuza e Renato Russo? Uns diziam que o Cazuza era um compositor que falava mais de amor, enquanto que Renato Russo falava mais de problemas sociais e políticos. Como sempre, eu discordei do ponto de vista e disse que em minha opinião, era totalmente o contrário.

Cazuza usava suas letras para descrever a sua impressão que ele tinha de mundo, lógico que essas impressões falavam de amor também. Mas, como por exemplo na letra de O tempo não pára (dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta) ele faz uma crítica ao que o governo oferecia ao povo como subsídios para uma vida digna e até mesmo o apoio que ele não encontrou, por parte do governo, para tratamento de sua doença (uma vez que o país não dispunha de nenhuma política de tratamento e prevenção, e ele, como um burguês, já sofria as mazelas da contaminação, o que diria de uma família sem tantos recursos?). Na letra de Ideologia (meus heróis morreram de overdose, os meus inimigos estão no poder) ele fala sobre as expectativas frustradas de ter visto seus ídolos falecerem pelo consumo excessivo de drogas, como Janis Joplin, Jimi Hendrix, entre outros. Logicamente, como dito anteriormente, Cazuza falava de amor em suas letras, mas a essência de suas composições eram as críticas sociais e políticas que ele fazia ao sistema em que ele estava inserido.

Talvez possa parecer estranha essa colocação, mas Renato Russo foi um dos compositores contemporâneos que mais falou de amor em suas letras, o detalhe para que isso seja tão subjetivo, é que ele não atrelava melodias melancólicas em suas canções de amor. Na letra de Sete Cidades (já me acostumei com a tua voz, com teu rosto e teu olhar... quando não estás aqui sinto falta de mim mesmo), ele traduz o sentido do enamorar, do descobrir, do se entregar. Na letra Por Enquanto (se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba) ele fala sobre a frustração comum dos enamorados ao término de um relacionamento, ou será que ninguém passou pela experiência de ter achado que algo seria pra sempre, mas esse sempre teve um fim? Agora na letra de Daniel na cova dos leões (Faço nosso o meu segredo mais sincero, e desafio o meu instinto dissonante. A insegurança não me ataca quando erro e o teu momento passa a ser o meu instante. E o teu medo de ter medo de ter medo não faz da minha força confusão; teu corpo é meu espelho e em ti navego e eu sei que a tua correnteza não tem direção) ele fala a respeito de paixão, da sinceridade da entrega e de lealdade a quem se ama.

Logicamente, que os estilos de vida dos dois compositores (Cazuza e Renato Russo) não devem ser seguidos, mas não há como negar o talento que os dois tinham para escrever e expressar sublimidade nos sentimentos. Isso nos remete a uma lição muito interessante. Às vezes as pessoas podem ser como ostras, ter um visual (quando digo visual, não falo somente de aparência pessoal, mas de apresentação) não tão bonito, mas revelam um conteúdo espetacular, como podem ser como sepulcros caiados, daqueles que são verdadeiras obras de arte, mas no seu interior só possuem podridão e lixo.

Dessa forma, cabe a nós aprendermos a não pré-julgar ou taxar ninguém diante de uma primeira impressão, e sim fazer com que essa pessoa possa ser conhecida, às vezes os talentos provêm de quem menos se espera e é preciso sempre um incentivo para que uma fonte de talentos não sucumba ao ostracismo. Portanto, se você conhece alguém que tenha algum talento, faça com que essa pessoa se desenvolva. Isso mesmo. Incentive-a a escrever mais poesias, romances, a desenhar, a tocar um instrumento, a fazer artesanato. Não aniquile a arte. A criatividade é uma característica incomum dos grandes pensadores.

3 comentários:

  1. Eu perdi esta discussão mas tudo bem.O Cazuza em suas letras(a maioria) q as pessoas pensam serem de amor, é como se pode ser feliz numa sociedade q nada oferece,ele criticava de forma mais poética(vamos dizer assim), tudo e todos pois desde de adolescente ele foi tratado assim,no filme do Cazuza e em lugar nenhum, se fala sobre sua infância e adolescência e ele por ser burguês, filho de um produtor musical de condições razoáveis.Quando Cazuza se descobre como "gente" e toma redéas de sua própria vida,passa a compor o q ele via e conhecia de perto, as diferenças de classes e posturas e não entendia porque tinha q ser assim,passa a ganhar seu dinheiro e aproveitar uma vida q ele passou tempo para perceber q poderia levar apesar de ter uma 'imagem' a zelar.Renato Russo morador de Brasilia quando pequeno, tinha poucos amigos(Dado,Joao Barone,Fê Lemos entre outros) e via a necessidade de expressar o q sentia,depois q montou o instinto Aborto Eletrico,passou a ser um rebelde q fazia letras pesadas mas com algum sentimento alí escondido(Podemos lembrar de Que País è Este, q é desta época,uma critica ao Governo mas uma chance ainda de q as coisas melhorem um dia..não está vivo para ver o Lula dando uma aula de como se governa,pena!!!...Rs).Vejo q com palavras não tão melodicas, Renato conseguiu falar de amor diferentemente de qualquer outro cantor do gênero, só q o amor de várias formas e direcionado a tantas coisas,seja amor ao próximo,amor a vida, a morte,a família,aos amigos,ao trabalho,ao país(apesar dos pesares) e sempre baseando-se no que dizia a Ordem Rosa Cruz(segmento q ele tinha um certo apelo em estudar).Resumindo: dois gênios da nossa música q souberam dar os seus recados de forma contundente e verdadeira.Com cada um aprendi várias coisas e sempre penso numa frase de alguma música deles para algum momento em minha vida:"...não faça com os outros oq vc não quer q seja feito com vc..."...." Eu não posso causar mal nenhum/A não ser a mim mesmo...".

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  2. Muito bom querido,continue assim me surpreendendo sempre,você é especial.Beijos

    Mônica

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  3. Linda crônica, agradeço a Deus todos os dias por ter a oportunidade de ler textos tão maravilhosos como os que vc escreve. Tenho aprendido muito com eles, e quanto a conhecer pessoas com talento vc é uma delas, escreve com perfeição. Continue sempre assim!!!!
    um grande beijo.
    Catia

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