
Há algum tempo atrás, eu estava indo para o meu antigo trabalho de condução e para aliviar o estresse da viagem, parecia até ironia porque viajar num ônibus que transportava muito mais pessoas que podia e tudo isso sem condicionador de ar, a empresa disponibilizava um “serviço” de som para que os passageiros pudessem ouvir as notícias do dia e algumas músicas também. E a rádio escolhida pelo condutor do coletivo era a JB FM, pra quem conhece uma rádio carioca bem elitista, onde o som mais popular que você escuta é Ana Carolina. Depois de uns vinte minutos de viagem, já um pouco próximo do meu ponto de descida, eis que estranho uma música que tocava na rádio:
“Ela achou o meu cabelo engraçado, proibida pra mim, no way... se não eu quem vai fazer você feliz, se não eu quem vai fazer você feliz, guerra!”
Eu fiquei espantado com aquilo e logo percebi que não era o Charlie Brown Jr que estava cantando aquela música, era o “ilustre” Zeca Baleiro. O pior de tudo não foi o Zeca Baleiro ter regravado essa música, mas a rádio elitista tocá-la e por condições contratuais, citar os autores da composição. Foi hilário ouvir o locutor dar os créditos ao fim da música: “Proibida pra Mim, com Zeca Baleiro, de Chorão, Pelado e Champignon. (risos)
Será que a música passou a ser outra na voz do Zeca Baleiro? Logicamente que não. E, esse é só um caso utilizado para ilustrar a percepção que as pessoas têm para rotular aquilo que elas acham que é de bom senso e o que acham que é popular.
Isso me resigna profundamente porque é como se as pessoas fizessem um padrão para entender o que é cultura. Quando na verdade, a cultura é uma constante variação de módulos e gêneros, e acima de tudo, expressão. Seja pagode, samba, hip-hop, blues, rock, funk, não importa, tudo é cultura.
Agora o que algumas pessoas querem é impor os seus gostos e estilos e dizer que o que for fora daquilo não deve ser considerado. Engraçado que quando a Gal Costa e o Zeca Baleiro fizeram uma gravação de Vapor Barato (eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus) ela foi entendida como uma música de bom gosto. Agora por que quando O Rappa cantava nunca foi? Por que virou um frisson nacional a versão que a Adriana Calcanhoto fez de Fico assim sem você (futebol sem bola, piu-piu sem frajola, sou eu assim sem você) se na verdade essa música foi um hit da dupla Claudinho & Buchecha?
Outra contradição nesse tema é que muitas pessoas acham que o Roupa Nova regravou uma música de Sandy & Júnior, quando na verdade, a composição da música A lenda (se a lenda dessa paixão faz sorrir ou faz chorar o coração é quem sabe) é dos componentes do Roupa Nova. Ou seja, acham, por pura ignorância, que o Roupa Nova, grupo que faz sucesso há mais de 20 anos, precisaria regravar um hit de uma dupla para aumentar as vendas de suas cópias.
Devemos entender as diversas correntes de cultura e não rotular tipos como de bom gosto e outros de mau gosto. O que pode nos nortear nessa questão é a nossa preferência, nada mais. Eu não preciso freqüentar roda de samba para saber que o Arlindo Cruz é um excelente compositor, ou será que a música que a Maria Rita interpretou para uma novela global, chamada Tá Perdoado (defumei o corredor, perfumei o elevador pra tirar de vez o mal olhado) não tem qualidade?
Em contrapartida, fica uma dúvida para mim. Se outra cantora qualquer tivesse gravado a música Não é Proibido (jujuba, bananada, pipoca, cocada, queijadinha, sorvete...) que é hit na voz de Marisa Monte, será que seria tão bem vista? Por que a música Sinas de fogo (quando você me vê eu vejo acender outra vez aquela chama, então pra que se esconder, você deve saber o quanto me ama...) na voz de (argh!) Preta Gil é horrível e quando a Ana Carolina canta no DVD Estampado é esplendida? Ou então, quando a Negra Li canta "eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que o meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você" é uma letra sem nexo, mas ninguém se recorda que é uma citação de uma música de Marisa Monte chamada Eu sei (Na mira) que tem o mesmo refrão.
Eu tenho as minhas preferências musicais e os artistas que me induzem a comprar um CD ou baixá-los na internet, porém não dá pra simplesmente repudiar aquilo que é contrário ao meu gosto. Hoje, eu tenho um gosto muito mais eclético do que outrora. Até por que, enquanto aqui no Brasil, jogamos garrafas no Carlinhos Brown, ele continua abrindo shows do Sepultura na Europa; enquanto continuamos celebrando músicas tolas como NX Zero, o Linkin Park vendeu milhões de cópias numa parceira com o rapper americano, Jay Z.
Falar de cultura, ainda mais de gostos musicais é muito extenso e complexo, mas vale enfatizar que eu tenho que ter o meu critério de avaliação. Se eu não afeiçôo com o ritmo, não posso menosprezar a qualidade do intérprete, assim como se eu julgo a qualidade sonora, não posso simplesmente aniquilar o peso do balanço da música.
Pra encerrar, quero expor uma música composta por um bêbado, ensandecido, mas que foi um dos grandes compositores do século passado, de modo que Cazuza o curtiu e assim a produção do filme Cazuza – O tempo não pára fez questão de citá-lo:
“Bate outra vez com esperanças o meu coração. Pois já vai terminando o verão. Enfim volto ao jardim com a certeza que devo chorar, pois bem sei que não queres voltar para mim. Queixo-me às rosas, mas que bobagem as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti. Devias vir para ver os meus olhos tristonhos e, quem sabe, sonhavas meus sonhos por fim”
(As rosas não falam - Cartola)

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