
Todos saíram do quarto e Wallace não se conteve em lágrimas. Lucas olhava fixamente para Wallace e antes que Wallace pudesse falar alguma coisa, Lucas foi até o primo e disse que a atitude que ele tivera, fora impulsionada por sua índole e que ele jamais deixaria alguém sofrer, podendo ajudar essa pessoa. Wallace começou a explicar que o fato de ele ter procurado Raquel era porque ele não se continha de inveja de Lucas e que ele desejava ter a vida que Lucas levava. Mesmo Wallace sendo o filho de um dono de uma rede de postos de gasolina, ele nunca teve a confiança do pai para administrar os negócios da família e viu seu pai investir dinheiro na formação acadêmica de Lucas. Wallace sabia que nunca seria tão inteligente quanto Lucas, que nunca seria tão desenvolto como Lucas e percebeu que a única forma que ele tinha de atacá-lo, era seduzindo Raquel. Lucas ouviu atentamente e não se fez de rogado. Começou a dizer para Wallace que ele fora o seu ídolo na adolescência. Lucas sempre admirou a beleza de Wallace, o poder de sedução do rapaz e acabou herdando a mesma paixão por automóveis. Lucas fez questão de dizer ao primo que sempre o admirou, mas que naquele momento ele sentia pena, porque via que o primo não tinha construído nada para sua vida e que sabia que ele nunca seria capaz de arcar com nenhuma responsabilidade. Wallace achou as palavras de Lucas muito duras, mas não o confrontou, pois em seu íntimo, ele sabia que Lucas estava com a razão. Lucas se despediu do primo, dizendo que ele não faria nada de diferente, mas que a partir daquele momento, a admiração cessara-se e que ele buscaria um novo caminho para sua vida.
Todos estavam aflitos do lado de fora do quarto e foram logo interrogar Lucas se tudo estava bem entre os dois. Lucas foi evasivo em dizer que as coisas estavam resolvidas e que ele não se lamentaria pelos erros e faltas cometidas, ele estava disposto a buscar um caminho diferente para sua vida. Os familiares adentraram o quarto de Wallace e viram que ele estava com um ar de alívio, mas sabiam que sofria por ter feito tanto mal para uma pessoa que sempre lhe fez o bem.
Lucas não ficou no hospital e regressou para sua casa. Ao chegar em casa, ele verificou na secretária eletrônica que Raquel havia deixado vários recados e tentado falar insistentemente com ele também. Lucas decidiu não retornar a ligação, mas quando estava indo tomar um banho, o telefone tocou novamente. Era Raquel. Lucas atendeu, até de maneira bem educada, e ouvia uma Raquel chorosa e arrependida. Raquel dizia para Lucas que estava arrependida por tudo que tinha acontecido e que o amava na mesma intensidade de antes. Nesse momento, fora como se Lucas tivesse um punhal em suas mãos e transpassasse Raquel. Lucas disse que não acreditava que uma pessoa que lhe amasse pudesse agir de maneira tão covarde, que pudesse se entregar a primeira pessoa que se pusesse a sua frente e não lhe desse a confiança necessária. Raquel admitiu todos os seus erros e tentava de alguma maneira fazer com que Lucas a perdoasse e que os dois pudessem reviver aquele amor.
Lucas, numa atitude, até certo ponto, sublime, disse para Raquel que o amor que ele sentia por ela, ainda estava da mesma forma. Ele não conseguia se desligar desse amor, mas ele não confiava que ela pudesse ser a pessoa certa para ele e que a história deles havia terminado. Raquel pranteou no telefone, implorando uma nova chance de Lucas, mas Lucas estava bem seguro de sua opinião e disse que ela havia jogado fora a chance para a felicidade, que ele havia sonhado diversas coisas, que o seu intuito era que logo que ele conseguisse a sua promoção, ele gostaria de levá-la ao altar. Raquel refutava do outro lado que aquilo ainda seria possível, mas Lucas estava irredutível. E ele acabou encerrando a conversa, dizendo que o amor que ele sentia, ainda estava latente no seu interior, mas a forma como Raquel agiu, não permitia que ele desse uma nova oportunidade para ela. Raquel não suportou e desligou o telefone, totalmente sem voz e sem forças, de tanto chorar.
Lucas chorou muito, após o fim da conversa, afinal de contas, ele sentia um amor muito grande por Raquel, mas a sua razão dizia que talvez ela agisse da mesma forma numa nova crise entre os dois, e isso o consolou.
Lucas deitou em sua cama, após o banho e conseguiu pegar no sono, somente uns quarenta minutos depois, mas logo cedo, por volta de 8h da manhã, já estava de pé novamente. Seus pais, Seu Altair e Dona Sonia, estavam muito cansados, afinal de contas, estiveram durante toda a madrugada no hospital para apoiar Elisa. Seu Altair contou para Lucas que Wallace receberia alta em, no máximo, três dias. Lucas ficou feliz com a notícia e decidiu dar uma volta pelo bairro, de forma a não se sentir tão sedentário e para espairecer os pensamentos de todos os problemas que estava enfrentando naqueles últimos dias.
Enquanto ele cruzava o segundo quarteirão após a saída da sua casa, eis que Renata o encontra e o chama para uma conversa, numa lanchonete do bairro e Lucas aceita. Ela pergunta como estava o seu primo e fica feliz com as boas-novas, mas não deixa de dizer a Lucas que talvez Wallace estivesse sofrendo o que merecesse. Lucas disse que não achava correto alimentar mágoas de ninguém e que ele havia perdoado o primo. Renata aproveitou para dizer que só homens bons teriam um coração tão puro. Lucas sorriu da situação, deu um beijo no rosto de Renata e levantou-se para continuar a sua caminhada. Renata se ofereceu para acompanhá-lo, mas Lucas disse que preferia caminhar sozinho e que Renata era uma pessoa adorável, linda, mas que eles não ficariam juntos. Renata sentiu a força da dispensada, mas permaneceu admirando Lucas de longe, enquanto ele ia virando a rua e fugindo do seu raio de percepção.
Lucas completou a sua caminhada e voltou para casa, louco por um banho e por um bom almoço. Mas, para sua surpresa, quando ele entrou na sala, Raquel o aguardava no sofá. Lucas disse que os dois não teriam mais nada o que conversar, mas ela insistiu para que ele, ao menos, a ouvisse. Lucas aceitou o pedido de Raquel. Raquel mais uma vez insistiu que eles pudessem passar por cima de todos os erros e pudessem reconstruir o relacionamento, mas Lucas, enfaticamente, disse que era algo impossível, pois ele não conseguia mais confiar em Raquel. Ela relutou e ficou de pé, próximo a ele e tentou beijá-lo. Lucas se desvencilhou de Raquel, a segurou levemente pelos braços e disse que o amor que ele sentia por Raquel era incomum, mas que ele não seria capaz de confiar nela novamente. Raquel ficou arrasada e decidiu ir embora. Os pais de Lucas vieram até ele e o consolaram, pois Lucas sofria muito por causa de Raquel. Ele subiu para o seu quarto e foi tomar uma ducha, enquanto sua mãe terminava o preparo do almoço.
Logo após o banho de Lucas, a família assentou-se à mesa e eles começaram a desfrutar de uma deliciosa lasanha, receita tradicional de Dona Sonia, aos domingos. Lucas gostou tanto do prato que até repetiu, mas quando estava quase terminando a refeição, o seu telefone tocou. Ele achou que fosse Raquel, relutou em atender, mas decidiu levantar-se da mesa para atender o telefone. Ele se admirou, pois viu que era uma chamada do seu gerente e decidiu retornar a ligação. Quando o gerente de Lucas atendeu a ligação, Lucas tratou logo de perguntar o motivo da ligação e o gerente explicou que precisava que Lucas estivesse uma hora mais cedo na empresa, pois eles receberiam uma equipe de uma empresa francesa que estava interessada num dos produtos que o departamento de Lucas geria e que os diretores da tal empresa, só teriam aquele horário disponível. Lucas, empolgado com a chefia, disse que estaria na empresa no horário solicitado e o seu gerente ressaltou que ele não poderia atrasar-se. Lucas confirmou mais uma vez o compromisso com o chefe, desligou o telefone e retornou para a mesa, a fim de terminar sua refeição.
Eles terminaram o almoço de domingo, Lucas ainda assistiu a um filme na tevê antes do futebol, que era quase que uma religião para ele, mas nem terminou de ver o debate esportivo da rodada, pois de maneira alguma, queria perder o horário para o trabalho no dia seguinte.
A noite se foi e o dia logo clareou. Lucas nem teve tempo para tomar o café-da-manhã e foi logo tirar o carro da garagem para ir ao trabalho. Seu pai, Seu Altair, tinha saído de casa mais cedo que o filho, pois tinha consulta marcada com o seu cardiologista, logo no primeiro horário da manhã, do outro lado da cidade, e para que não ficasse retido no transito, tratou logo de antecipar-se. Lucas conferiu os pertences para levar ao trabalho, mas estranhamente, o seu carro não deu partida. Ele conferiu a marcação de combustível e viu que estava num nível adequado, conferiu a bateria do carro e nada. O carro não funcionava de jeito algum. O tempo foi passando e com isso o nervosismo com o possível atraso. Já eram vinte minutos depois do horário de saída pretendido por Lucas. Lucas, num ato de desespero, engrenou a segunda marcha e empurrou o carro, mas mesmo depois de um embalo considerável, o carro não pegou. Ele já estava nervosíssimo, pois não poderia se atrasar a esse compromisso. Ele tentou dar partida no carro mais umas duas vezes, mas não obteve sucesso. Foi quando ele se lembrou de um vizinho taxista e foi logo chamá-lo, ele não poderia pensar em ir de ônibus, pois naquele horário, o transito no sentido Centro estava horrível e sua intenção era ir de taxi até a estação do metrô mais próxima e assim evitar o engarrafamento. O vizinho atendeu um pouco sonolento, pois tinha regressado da última viagem às 3h da madrugada, mas falou que levaria Lucas até a estação, uma vez que não seria uma viagem longa, no máximo quinze minutos. Lucas entrou no carro e foi logo ligando para sua secretária para verificar se os diretores já estavam por lá e ele ficou mais nervoso quando ela respondeu que sim. Ele pediu que o taxista acelerasse, pois ele estava com o horário apertado e o taxista, prontamente, o atendeu. O taxista estava a menos de três quilômetros do destino pretendido por Lucas e decidiu acelerar um pouco mais e não percebeu que o sinal estava amarelo a menos de duzentos metros do sinal e quando eles estavam passando pelo cruzamento, um ônibus vindo do lado direito colidiu com o taxi e Lucas não resistiu e faleceu.
Uma morte estúpida e cruel, uma vez se considerarmos que o taxista não chegou ao óbito, só Lucas. A família de Lucas entrou em desespero e trataram logo de avisar os demais familiares. Todos estavam desacreditados do que tinha acontecido e não queriam acreditar que aquele moço, de 23 anos de idade, inteligente, jovem, bonito, bem empregado, estava morto. Dona Sonia não teve forças para ver o filho sendo retirado pelo corpo de bombeiros, mas foi acudida por Raquel, que já tinha se encaminhado para o local, assim que soube do acidente de Lucas. Raquel estava inconsolável. Ela não aceitava a morte de Lucas, mas infelizmente tinha acontecido.
Os procedimentos legais e necessários foram realizados e uma grande multidão acompanhou o velório e o sepultamento de Lucas. O choque de toda a multidão era enorme. Amigos de faculdade, amigos do trabalho, a vizinhança, familiares que moravam no interior do Estado, todos vieram prestar sua última homenagem a Lucas.
Após o sepultamento, Dona Sonia e Seu Altair seguiram para casa e Raquel tratou de acompanhá-los. Eles se despediram de Raquel, assim que chegaram a sua residência e choraram muito. Afinal de contas, Lucas era seu único filho.
Na manhã seguinte, Dona Sonia muito atordoada com o fato recente, obteve forças , sabe-se lá de onde, para arrumar algumas coisas do filho. Após arrumar todas as roupas no armário, como se ele fosse voltar do trabalho, ela se incomodou com uma caixa que estava no fundo de uma das gavetas do armário do filho. Ela apanhou a caixa e viu que lá estavam muitas lembranças da infância. Uma foto tirada no Maracanã com o Zico, um grande ídolo do seu pai, umas figurinha repetidas do seu álbum da Copa do Mundo de 1994, porém dois objetos lhe chamaram mais a atenção. Uma foto dele com seu primo, Wallace, durante uma partida de futebol, onde os dois estavam abraçados após Lucas ter marcado um belo gol e que no verso estava escrito: “O irmão que eu nunca tive. O ídolo que eu sempre terei”. E um envelope, como um extrato bancário e um cartão que dizia que esse era o maior presente que ele poderia proporcionar à sua amada, era um fundo que Lucas estava mantendo há seis meses para uma viagem à Veneza, que era o local mais admirado por Raquel, para eles passarem a lua-de-mel quando se casassem.
FIM
Espero que todos tenham gostado dessa ESTÓRIA e aproveito para esclarecer que qualquer semelhança terá sido mera coincidência. E que não utilizei nenhum acontecimento para inspiração desse conto. Aguardo comentários!!!

Querido amei sua nova experiência de escrever história em capítulos, adorei os personagens e toda a história. A cada capítulo lido já ficava na maior ansiedade para ler o próximo, e na maior expectativa pra saber qual seria o final. confesso que torci para que o Lucas tivesse um final feliz...rsrs como já tinha lhe dito. mais preciso admitir que ficou melhor do que eu esperava, vc é surpreendente. um cronista incrível e a cada novo texto é um presente que vc nos dá.
ResponderExcluirTenho certeza que vc alcançará seus objetivos e estarei na torcida!!!!
bjs
Catia