
Lembro-me como se fosse hoje, era o vigésimo primeiro dia do ano de 2001 e fazia um calor estrondoso no Rio de Janeiro. Mas isso não era problema algum, pois seria o último dia do festival Rock in Rio 3 e eu estava com o ingresso comprado com bastante antecedência e ao meio-dia eu já estava num ônibus especial rumo a Avenida Salvador Allende, no Recreio dos Bandeirantes, onde até hoje fica a Cidade do Rock. Devido ao grande engarrafamento, chegamos ao local quase às 14h e tivemos que andar mais uns quinze minutos devido à grande quantidade de pessoas e a impossibilidade dos veículos de chegarem à citada Avenida. Eles só puderam chegar até a Avenida Embaixador Abelardo Bueno, onde hoje existe o Autódromo de Jacarepaguá e algumas instalações do Pan 2007, como o Parque Aquático Maria Lenk e a Arena Multiuso.
Era uma multidão jamais vista por mim, todos estavam ansiosos pelos shows de bandas como Silverchair, Capital Inicial e, obviamente, Red Hot Chilli Peppers. Passei pelas catracas reguladoras de acesso e logo pude contemplar o Palco Mundo, onde aconteceriam os principais shows, a Tenda Raízes, que era um espaço de música alternativa e a Tenda Brasil, onde várias bandas brasileiras se apresentariam. Demos uma volta pra conhecer o ambiente da Tenda Raízes, mas não achamos nada muito interessante e como os shows do Palco Mundo só começariam por volta de 18h, fomos curtir um som na Tenda Brasil.
Era muita gente bonita e oriunda de diversos lugares do Brasil. Conhecemos paulistas, gaúchos, catarinenses, mineiros, etc. Parecia um desfile da Ford Models, tamanha a beleza das moças que circulavam naquela área. Logo a Plebe Rude, banda famosa no cenário nacional do rock Brasil nos anos 80, começou um animado show e lá permanecemos por várias horas.
Nessa época, eu tinha 18 anos de idade, era a primeira vez que eu curtia um grande evento, ainda mais sozinho. Comecei a ficar maravilhado com aquela multidão e vi que tinham três meninas, lindas de fecharem qualquer cruzamento. Elas estavam bem animadas e de repente durante o movimento brusco de uma delas, vi que elas compartilhavam um cigarro de maconha. Era um cigarro enorme e elas fumavam sem se importarem com ninguém. Foi um choque de realidade para mim, pois eu tinha percebido naquele momento que não eram só essas meninas que faziam uso dessa droga, mas diversas pessoas também o faziam. Eu vi o cúmulo de um casal de namorados compartilhar um cigarro de maconha, na minha concepção um horror. Passaram-se mais algumas horas e logo começou o primeiro show no Palco Mundo. Uma banda chamada Diesel, que havia ganhado um concurso da produção do evento, foi a primeira a tocar. Um desastre! Músicas chatas e monótonas. Logo depois, subiu a “brilhante” banda cover O Surto. Pra vocês terem uma idéia, os caras cantaram três vezes o hit deles “um rosto lindo e um sorriso encantador e um jeitinho de falar que me pirou que me pirou o cabeção...”. Depois que eles cantaram uma versão ridícula de Californication, do Red Hot Chilli Peppers, a galera quase fez uma chuva de latas de cerveja neles e eles logo abandonaram o palco e já não era sem tempo. Depois veio uma banda americana, que até hoje eu não sei de onde surgiu chamada Deftones. Muito barulho e pouca coisa pra acrescentar. Naquele momento eu sentia que poderia ter sido a maior furada ter lutado tanto pra ir naquele evento. Mas, de repente, como o Palco Mundo estava vazio, ouvia-se o show do Biquíni Cavadão na Tenda Brasil. Um show de primeira linha que empolgou toda a platéia. Memorável. Mas, de repente, o Palco Mundo se acende novamente e o Capital Inicial faz um dos shows mais extraordinários que eu já vi em toda minha vida. Ouvir Dinho Ouro Preto cantando era como que um resgate de minhas memórias, quando eu compartilhava do gosto que meus irmãos sempre tiveram de rock brasileiro. Todas as letras estavam na ponta da língua. E eu fiquei extasiado quando o vocalista do Capital Inicial proseou antes de cantar uma das músicas mais formidáveis do Renato Russo, que fora gravada na época do extinto Aborto Elétrico: Fátima.
“Vocês esperam uma intervenção divina, mas não sabem que o tempo agora está contra vocês; vocês se perdem no meio de tanto medo de não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender e vocês armam seus esquemas ilusórios e continuam só fingindo que o mundo ninguém fez, mas acontece que tudo tem começo e o que começa um dia acaba e eu tenho pena de vocês”.
A galera delirava e pedia bis insistentemente. Logo depois, a banda australiana Silverchair tomou o Palco e fez um bom show. Já era quase meia-noite quando a Cidade do Rock estava em silencio e eu olhei para trás e pude contemplar a grande multidão ali presente, eram cerca de 250 mil pessoas. E logo, o Red Hot Chilli Peppers iniciou mais um grande show e eu pude ver aqueles que foram os responsáveis por eu ter comprado o ingresso para aquele dia. Durante o intervalo em que o vocalista do RHCP, Anthony Kiedis, falava com o público, eis que um clarão surge na multidão. A equipe de pára-médicos retirava dois jovens, de no máximo 22 anos de idade, praticamente em coma devido à grande quantidade de drogas utilizada. A escala de drogas naquele evento foi industrial. Mais um choque para a minha realidade. Como imaginar que jovens deixariam de curtir um bom show, beijar na boca, para se drogarem?
Logicamente que todo grande evento expõe essa possibilidade e ainda mais um evento de rock. Mas, eu tento compreender como uma pessoa se deixa dominar por uma coisa tão maldita como as drogas. Não adianta me dizerem que é por causa de estrutura familiar, porque eu sou filho caçula de uma família grande, não tive o prazer de conhecer o meu pai, porque ele faleceu dois meses antes do meu nascimento, minha mãe e nem ninguém nunca parou do meu lado para me aconselhar a ficar longe das drogas ou coisas do tipo, fui criado na rua, jogando bola descalço, resolvendo no braço muitas vezes as pendengas da molecada, mas nunca sequer experimentei qualquer droga ilícita. Acho que é muita fraqueza mesmo do ser humano, ou será que alguém acha melhor se drogar por estar passando por problemas familiares, por exemplo? Problemas, todos nós vivemos e vamos viver durante toda a vida, mas cabe a nós decidir o que é o melhor a se fazer. Se eu quiser me entregar a isso, com certeza a droga será meu consumidor voraz, mas eu posso encontrar outras soluções.
Por outro lado, existem pessoas que se deslumbram com o fato de muitos acreditarem que ela provoca alegria e que faz parte da rebeldia da juventude. Balela! A partir do momento que eu preciso me entorpecer para me satisfazer, eu perco totalmente o sentido de prazer e passo a canalizar somente nela.
E por último existe o aspecto das influencias. Mas, essas influências não são só as que temos às vezes de colegas e amigos vizinhos, mas até mesmo da própria mídia. Será que alguém se lembra que a banda Planet Hemp foi presa em Brasília há alguns anos atrás antes de iniciarem um show por apologia ao uso de drogas? Pois é, quando eles foram libertados da cadeia, todos os programas de televisão fizeram questão que eles fossem participantes, mas como o Ministério Público fez muita pressão, eis que lançaram a carreira solo do vocalista da banda: Marcelo D2. O teor das letras e o sentido delas são o mesmo da época da banda, mas hoje ele é atração principal do Festival Planeta Atlântida, do Premio Multishow de Música. O que falar dos grandes traficantes do Rio de Janeiro, que viram verdadeiras celebridades por suas exposições na mídia? E até mesmo, a mensagem subliminar de muitas músicas, como Meu Mundo é o Barro, do O Rappa, onde conta a estória de um homem que chega num local se apresentando como uma pessoa humilde, sem posses e conhecimentos e que tem um sonho. Que um dia alguém vai ouvir falar de um cara que era só um Zé. Pode parecer apelativo, admito, mas seria difícil acreditar que uma pessoa sem instrução ficaria famosa no Brasil inteiro pelo fato de assumir o comando ou ter grande participação numa organização criminosa? Obviamente não.
Não quero dizer com isso, que sou contra as bandas citadas acima, na verdade, são artistas, mas o que eu ressalto é que temos que ter discernimento para saber diferenciar as questões, de modo que não sejamos influenciados e não caíamos no erro da primeira prova.
Eu termino esse texto citando uma frase que li na camisa que um dos meus sobrinhos usava: “Use drogas e fique feliz. Não use drogas e viva feliz!”

Lindo texto, e vc nos dá sempre uma grande lição com suas hostórias a cada dia me convenço de que vc é uma pessoa muito especial, com um coração enorme e de carater único. hoje os jovens estão se perdendo cada vez mais se envolvendo com as drogas, precisamos ter consciencia de que isso não nos leva a nd e que a vida que construimos não pode se acabar por um simples "prazer", a vida tem prazeres muito mais valiosos que este.
ResponderExcluirTodos lutando por um mundo melhor!!!!!!
Catia